XXV Domingo do Tempo Comum
Os últimos serão os primeiros
Vês com maus olhos que eu seja bom?
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
1«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha. 2Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. 3Saiu a meia-manhã, viu outros que estavam na praça ociosos 4e disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha, e dar-vos-ei o que for justo’. E eles foram. 5Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo.
6Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’. 7Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’. Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’.
8Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’. 9Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um. 10Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um.
11Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: 12‘Estes últimos trabalharam só uma hora, e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportamos o peso do dia e o calor’.
13Mas o proprietário respondeu a um deles: ‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? 14Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. 15Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’ 16Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.»
Palavra da salvação.
É interessante ouvir este evangelho pela primeira vez. À primeira vista parece-nos que Jesus ensina algo naturalmente contrário à justiça, parece que ensina que quem trabalha menos será igualmente ou até melhor pago do que quem trabalhou mais, no fundo parece-nos a típica interpretação corrente de que «os últimos serão os primeiros». Será mesmo assim?
Para percebermos o que está aqui em causa temos de olhar para o que vem mesmo antes. No capítulo anterior, Pedro pergunta a Jesus: «nós deixámos tudo e seguimos-Te, que havemos de receber?» A parábola é a resposta a essa pergunta, e a resposta não é um número, é uma correcção à própria pergunta. Porque dentro da pergunta de Pedro está uma contabilidade: dei tanto, logo tenho direito a tanto. Ora este evangelho transmite-nos precisamente que a justiça dos homens não é a mesma coisa que a justiça do Reino dos Céus, e que no Reino dos Céus a justiça e a misericórdia estão numa simbiose e num equilíbrio divinamente perfeitos.
No Reino dos Céus, o Proprietário não permite que a sua graça seja comprada. Não no sentido de deixar de ser importante trabalhar na vinha, antes pelo contrário, o trabalho é essencial e merece verdadeiramente. O que não existe é crédito sobre Deus, e não é porque o trabalho não valha, é porque a própria possibilidade de trabalhar já foi Ele que a deu. Foi Ele que saiu de madrugada, foi Ele que voltou às nove, ao meio-dia, às três e às cinco. A iniciativa foi sempre d’Ele, cinco vezes, e nós entrámos na vinha de mãos vazias. Merecemos, sim, mas com moeda que Ele nos entregou primeiro.
Por isso o denário é um só. Não é um bem que se reparta por horas de serviço, é o próprio Deus, e Deus não se dá pela metade nem se divide em fatias. Quem chega às cinco da tarde não recebe um pedaço de Deus, recebe-O inteiro. Uma pessoa fiel desde a infância não recebe um Deus maior do que aquele que é dado a alguém que descobre a Verdade já em adulto. Ninguém entra no Céu em segunda classe.
Quem pensa que isto é igualitarismo está a pensar de forma errada. Aquilo que é dado é o mesmo para todos, mas a capacidade de o receber não é. Imaginemos um dedal e uma bilha mergulhados no mesmo mar: os dois saem cheios até à borda, nenhum fica incompleto, nenhum fica com sede, mas um leva mais água. A diferença não está no mar, está no recipiente. Quem amou mais chega ao fim com a alma mais alargada, mais capaz de conter Deus, e é isto que a Escritura quer dizer quando compara os bem-aventurados às estrelas, que diferem umas das outras em brilho ainda que todas sejam luz. E há aqui uma consequência bonita: no Céu não existe inveja, porque cada um está inteiramente saciado e a maior glória do outro é motivo de alegria.
Porque é que a justiça e a misericórdia são perfeitas aqui? Porque aos primeiros foi feita justiça, o acordo foi cumprido até ao fim, e aos últimos foi feita misericórdia, sem tirar nada a ninguém. Deus não conta o tempo de comunhão, porque o objectivo é estar em comunhão. Até porque, se pensarmos bem, de que adianta ser dos primeiros se muitas vezes desistimos pelo caminho? E que problema há em sermos dos últimos, se formos fiéis até ao fim? O que conta é chegar ao fim do dia dentro da vinha. Mas atenção, isto não é permissão para adiar: ninguém tem garantia de chegar às cinco da tarde, e a hora da chamada não a escolhemos nós.
Depois temos aqui a questão da inveja. Os primeiros cometem o pecado da inveja. O problema não é claramente injustiça para com eles, o dono di-lo com todas as letras: «Não te fiz injustiça». O problema é a inveja da misericórdia do Proprietário para com os últimos. O texto é quase brutal: «Vês com maus olhos que eu seja bom?» E já não é a primeira vez que nos é ensinado que a inveja é um pecado horrível, muito comum e muito fácil de vir ao trato humano.
Façamos o paralelo com o Filho Pródigo, porque é essencialmente igual. O filho que nunca saiu de casa deveria mostrar-se feliz pelo regresso do irmão, e em vez disso fica invejoso da festa que o Pai fez. Nos dois casos o justo transforma o seu próprio serviço em motivo de amargura.
Depois é interessante o facto de este texto, escrito em forma de parábola, ressoar precisamente com aquilo que a Doutrina Social da Igreja viria a formular quase dois mil anos depois, a partir da Rerum Novarum, em 1891. A legitimidade da propriedade privada, a dignidade do trabalho, a justiça devida ao trabalhador e a caridade que vai além dela.
Repare-se que na justiça dos homens o normal seria admitirmos que é injusto um patrão pagar o mesmo a dois funcionários pelo mesmo trabalho quando um prestou menos horas. Mas mesmo dentro da justiça dos homens percebemos como é incompleta e imperfeita a nossa prestação. Casos desses acontecem, e muitas vezes aquele funcionário fez menos horas por motivos de saúde, por motivos familiares, por uma situação que ninguém lhe perguntou. Se houver bondade da parte do patrão em manter-lhe o mesmo salário, isso tem de ser visto com bons olhos, isso é bom. Nós é que julgamos terceiros sem sabermos todo o contexto.
O Evangelho ensina-nos também uma coisa que acontece muito no mundo dos homens, principalmente no mundo do trabalho. Olhamos sempre para os outros, passamos a vida a comparar-nos, quando o contrato que temos é com o patrão, com a empresa, e não com aqueles com quem nos comparamos. A inveja aparece no local de trabalho mesmo quando toda a justiça foi cumprida connosco.
Por último, a liberdade do proprietário para fazer o que é correcto. «Não me será permitido fazer o que quero do que é meu?» Na parábola esta frase é imagem da soberania de Deus, que não deve satisfações a ninguém pela sua bondade. Mas ensina também alguma coisa sobre o proprietário humano: não basta que a propriedade privada seja legítima, é preciso que o proprietário tenha liberdade real para fazer o bem com aquilo que é seu. Uma ordem em que o patrão não pode ser generoso é uma ordem empobrecida. É por isso que a Igreja defende a propriedade privada, ainda que nunca como direito absoluto, sempre subordinada ao destino universal dos bens, precisamente porque é na liberdade do proprietário que a caridade se torna possível. Quem é bom tem de ter espaço para ser bom, e essa bondade não é ofensa nenhuma a quem já recebeu o que lhe era devido.
Fica então uma pergunta para a semana, e não é retórica. Quando alguém que viveu mal durante anos se converte e é recebido com festa, o que é que nós sentimos? Se for alegria, estamos na vinha. Se for aquele aperto de quem anda a fazer contas, então percebemos exactamente o que Jesus estava a dizer, e a parábola foi dita para nós.
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